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Faltava-me coragem para admitir e vergonha para dar fim, mas a verdade é que acabou. É, eu sei. É uma heresia construir uma frase que lembre vagamente algo que Pessoa escreveu brilhantemente; e mais heresia ainda é colocar essa frase num texto mediano como esse, ou seja, numa conversa à toa com você. Mas o fato é que você acabou faz tempo e muitos meses depois eu ainda tentei vir aqui para tentar tapar o sol com a peneira, cada hora com um argumento diferente, mas não adiantou. Não dessa vez.
Olhando para trás eu não sei onde estava, o que fazia, por que lugares andava ou o que ouvia. Não sei o que sentia, o que observava e de que maneira reagia. Os textos permanecem lá em algum lugar, mas não revelam nada porque lhes faltam alma. Estive suspensa no ar durante muito tempo esperando algo que não sabia o que era, mudando de idéia como quem inspira e expira, atropelando vontades com um derrotismo já entranhado. Auto-sabotagem era o que eu pensava com frequência e apatia era o que eu gostava de repetir por aqui. Mas nada fazia para mudar.
Divagações sobre nada que se parecesse ou lembrasse um pouco a dor de fato. Ainda que o motivo fosse bobo ou desimportante; ainda assim seria o motivo da dor explícito por aqui, mas não. Nem ao menos me dei ao luxo dessa exposição, preferi ser ponderada, reticente, pouco clara, comedida. Lâmpada de 40 watts, fraca.
Tudo muito melancólico e abstrato. Muitos porquês, desculpas, muita explicação em torno do que nunca foi escrito com todas as letras e blá, blá blá sem importância também. Até que o exercÃcio regular de se esconder foi minguando, foi perdendo a intensidade, reaparecia, sumia novamente, tornava a aparecer e agora estamos nesse impasse.
Eu já acabei com você muitas vezes. Quis me convencer de que não precisava de você e de que você não me trazia nada de bom, mas não era verdade. Camuflando uma verdade qualquer ou não, você me servia como válvula de escape, ainda que só eu entendesse o que um texto ou outro poderia querer dizer. Querendo ou não, eu esbarrei com gente legal por aí porque você existia; e talvez seja esse o motivo de não ter tido coragem para acabar com você. O que me faz pensar que o motivo é mais do que razoável, mas não deixa de ser também a constatação óbvia de que não tenho coragem pra muita coisa. Afinal é só você, não é? Um página cretina ocupando espaço no mundo cibernético. É coisa de um clique e pronto: tá feito!
Mas não. Eu tenho apego até pela caixa de brincos quebrados no fundo da gaveta. O que dizer então dos meus escritos ainda que muito mal escritos? Textos que até pouco tempo atrás eu acreditava que pudessem me ensinar algo se voltasse a lê-los posteriormente... Enfim, como você bem sabe estava aquém das minhas possibilidades excluí-los, então fui deixando de lado, me entregando a vontade de não passar por aqui tão cedo, e, acredite, eu ficava torcendo para que ninguém encontrasse o seu passado repleto de linhas infantis e cretinas. Quis mudar o seu nome, trocar o seu endereço por várias vezes; mas criar já não era tão fácil como antes e como tudo o que eu queria naquele momento não se parecia com caos, deixava para depois mesmo sabendo que ele, o depois, nunca viria.
Você pode ficar bravo, mas não pode me acusar de ter tido aquela vaidade-burra-e-insensata que acomete meio mundo por aí. Autocrítica nunca me faltou e sempre soube das minhas limitações. Por isso cada volta era acompanhada de uma justificativa, que no fundo não passava de uma tentativa de olhar diferente para minha própria vida, sob outras e novas perspectivas, criando, dessa maneira, uma razão para continuar. Nós dois sabíamos: essa era a única maneira.
Na semana em que me prometi voltar pra você, eu mudei de idéia e fui arrumar gavetas. Eu remexi em muitas coisas aqui, vi o meu passado passar por mim*, dei fim em muita coisa e por um instante as lembranças que se escondiam em algum lugar, voltaram... Olhei para roupas com cheiro de guardadas e que não cabiam mais; para cartas antigas cujos remetentes cruzam comigo hoje nas ruas e eu faço de conta que não os conheço, com fotos do tempo em que minha mãe sorria e posava para a câmera, com trabalhos acadêmicos que me fizeram sentir saudade do tempo em que eu ocupava a cabeça com assuntos interessantes; com agendas/diários aborrecentes capazes de constranger o meu ar mais blazé; com livros que não sabia que tinha e com revistas velhas exprimindo o quão desconectadas do presente se encontram hoje.
Ao contrário do que senti ao ler os seus arquivos, senti paz de espírito ao revirar essas coisas todas. Percebi que já fui mais intensa do que mostrei nesses (quase) dois anos por aqui, que já quis muito mais da vida do que transpareci por aqui, que já até paguei pra ver algumas vezes e gostei do risco. Me vi com brilho nos olhos, com uma inocência e uma ingenuidade que desapareceram por conta de alguns tombos inevitáveis, e, veja só você, vi até a ausência das minhas olheiras de agora. E como eu era bela, inteligente e interessante.
Não fui a fundo como era de se esperar. Afinal tratava-se de uma arrumação geral nas minhas coisas, dessas que todo mundo faz antes do ano acabar valorizando a máxima de que o velho tem de ir embora para que o novo possa chegar. Por fim durou três tardes e acabou na de ontem; ao menos serviu para ocupar parte desses dias ociosos, pouco interessantes e nada produtivos.
Ãh? Tá achando estranho eu aqui essa hora? Quer saber de onde estou vindo?
Bem, é de lá que eu venho nesse exato momento. Foi lendo o que li por lá que vim no ímpeto de dizer algo a você, confesso. Mesmo sabendo que esses arroubos de madrugada são perigosos -- você sabe: a gente fala demais e publica sem receio e sem revisão --, resolvi correr esse risco por achar que já estava passando da hora.
Pode achar que eu estou pegando carona no rompante alheio etc e tal. Diga o quanto quiser, eu deixo, não é mentira, então fale mesmo. O que ela fez por lá eu estava há dias tentando fazer com você e não sabia por onde começar. Sentei por mais de uma vez com o intuito de ter essa conversa contigo, mas eu fugia na medida em que ficava tentando criar layouts novos para só então te escrever e aí já viu, né? Eles nunca saíam.
É, meu caro, mais uma vez a importância dela nessa nossa história é latente e não poderia ser de outro jeito. Que ela sempre exerceu poder sobre mim, eu nunca escondi de você. Mas exercer poder no bom sentido, claro. Talvez até ela saiba disso, talvez eu goste da idéia de pensar que ela sabe, sei lá.

O que eu sei é que por causa dela só agora descobri o quanto eu adoro "Felicity" e isso é deveras importante principalmente porque existem personagens como Sean e Meghan, os meus preferidos. Por causa dela redescobri a delícia de uma boa leitura, enxerguei na prática o real sentido do que é cultivar uma amizade, a importância do respeito nas relações, e, principalmente, por causa dela domingo não é mais um dia ruim sucedido de outro ainda pior e isso, francamente, faz toda a diferença.
Adoro escutá-la seja sobre qual assunto for. Cada vez aprendo e relembro mais coisas que julgava ter esquecido. Depois que terminei a faculdade, ela passou a ser o meu contato mais próximo com o erudito, com o que é belo e complexo. Precisa de mais?

E além de tudo isso você sabe que foi ela quem me deixou à vontade com essa coisa de escrever em blog desde do primeiro instante, logo sem ela você sequer existiria. Devemos muito a ela, meu caro. Até mesmo essa nossa conversa, se ainda não ficou claro pra você. Ok. Não é o que podemos chamar de lavação de roupa suja, de mais uma volta sem alarde e altamente justificada, mas também não se parece com um adeus impetuoso e nem mesmo quero pensar que seja um até logo. Encare como algo que precisava ser dito a você.
ACABOU.
Aquilo que começoou ainda no Weblogger, na madrugada do dia 16 (ou seria 17?) de dezembro de 2002, acabou aqui de maneira definitiva. A verdade é que nós dois sabemos (lembrando o [início do texto) que você foi acabando na medida em que eu fui te deixando de lado, mas agora é um ciclo que se fecha.
De agora em diante pretendo dar um outro tom a você. Algo com mais identidade, mais verdadeiro, mais simples e sobretudo natural, como tudo deve ser mesmo. Talvez você e os seus leitores não percebam mudança alguma, talvez vocês comecem a achar tudo muito mais nauseante do que antes, pouco importa. Impressões alheias estão fora do meu controle. Quanto ao seu passado, não sei se faço uma limpa no "lixo" deixando só o que me parecer razoável ou se assumo minha pequenez* diante de todos e deixo tudo como está. Não sei ao certo, estou decidindo.
Não espere algo acima da minha média porque o diarinho é inevitável. Uma vez achei um blog no qual o cara dizia que que blog de mulher era muito chato e que ele não tinha qualquer interesse prévio em ler blogs mergulhados no universo feminino porque, segundo ele, as mulheres não conseguiam olhar para outro lugar que não fosse o próprio umbigo, e, sendo assim, eram incapazes de escrever sobre qualquer outro assunto que não envolvesse um fato recente de suas insignificantes existências. E por fim ele terminava dizendo que esse tipo de blog não despertava vontade para ler porque ele não teria qualquer interesse na vida delas, a não ser, é óbvio, se ele estivesse afim de comer a dona do blog.
Me lembro de ter concordado em parte com ele, mas os poréns guardei pra mim. Óbvio que me veio à cabeça coisas como: " isso só pode ser coisa de ginecofóbico* " ou algo do tipo; mas clicar no "x", aquele que fica do lado direito superior em toda tela, foi menos degastante pra mim. Afinal não o conhecia.
A idéia aqui não é provar o contrário para manés como esse ou subverter padrões ou regras, que fique claro; a pretensão é e sempre foi nenhuma. Nada de entrar na modinha de divulgar e vender coisas, muito menos começar a escrever livros sem ter talento para tal. Só quero me permitir ser verdadeira aqui. Se for para parecer frágil, vulnerável, idiota, medíocre, egoísta e mesquinha de vez em quando, que seja! Todos nós temos momentos assim. Quero me envergonhar do que disse se for o caso, e não do que não tive coragem para dizer. Não tenho medo dos rótulos e do que "não é politicamente correto", tenho medo do quase. O "quase", primo do "se", me ronda há uns 3 anos e eu tô afim de dar um sacode, um chega pra lá nele.
Enfim, meu caro, quero ir até o fim nos sentimentos mais torpes ou mais bonitos ou mais intensos. E quero fazer isso até enjoar, até conseguir reunir motivos concretos para achar que você é intragável, desprezível e enfadonho... Aí sim, quem sabe, eu possa te largar de vez.
Por enquanto, AD, não dá.
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